Jul 21, 2007

Latitude 40

Homme libre, toujours tu chériras la mer!
La mer est ton miroir; tu contemples ton âme

Baudelaire


Os NY Diaries desta semana foram escritos sobre o Atlântico, entre Londres e Nova Iorque, a 10,976 metros de altitude. Um voo de longo curso, pode muito provavelmente ser o cenário ideal para escrever os NY Diaries, sem BlackBerry, telefones, interrupções ou distracções, apenas eu e o computador portátil.

Mas se hoje em dia se vive em simbiose com os computadores, nada substitui o ver e sentir o mundo ao vivo, as gentes, as mentalidades, os cheiros e os sabores. Mesmo aqueles que nunca esquecemos, mas que, ainda assim, despertam memórias perdidas nos recantos da nossa história quando novamente percepcionados.

Desta vez Londres foi só para fazer escala. Revisitei Lisboa, onde nasci e cresci, uma terra que vive ao ritmo da nostalgia que sente quem um dia viu mais partir do que chegar, que deu novos mundos ao mundo, mas que se esqueceu de se reinventar. Uma Lisboa que senti enclausurada no passado, a avançar em passos tímidos em direcção ao futuro, em vez de vibrar com o presente.

Um dia a capital do Império e actualmente a capital do país que acolhe a presidência da União Europeia, a Lisboa de hoje não é apenas o confluir de gentes de outras paragens e nações, mas também de portugueses espalhados pelo mundo. Portugueses ou lisboetas que se conheceram nessas outras terras e que, de tempos a tempos, desaguam em Lisboa. Foi uma agradável coincidência geográfica que, desta vez, permitiu sentar a uma mesa do Bica do Sapato Londres, Luxemburgo e Nova Iorque. Uma ínfima mostra de um fenómeno que denoto cada vez mais comum em Portugal, o êxodo de talento para o estrangeiro. O que é mais gritante, é que há uns anos atrás saímos por opção de carreira ou de percurso pessoal, hoje, muitos dos que vão para o estrangeiro, saem porque não têm verdadeiras oportunidades no seu país.

Apesar de Nova Iorque e Lisboa partilharem praticamente a mesma latitude, os contrastes entre as duas cidades não podiam ser mais marcantes. Na voz de Bebel Gilberto, no seu último CD, os Nova Iorquinos "sonham ao vivo", e essa é uma diferença fundamental. Para nós, os sonhos são objectivos reais e palpáveis, não apenas meras quimeras. Talvez porque Nova Iorque viu chegar milhões de esperanças a Ellis Island, por onde antes de 1924 passou mais de setenta por cento da imigração americana, em vez de ter visto partir. Talvez porque tenha recebido quem estava disposto a correr riscos e a realmente fazer acontecer, porque a vida (injustamente ou não), não tem ensaios, é sempre um programa em directo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa


[Publicado no Semanário Económico - 20 de Julho, 2007]