Sep 1, 2007

NY Diaries 13: Chinatown

Há um ponto no mapa de Nova Iorque, com fronteiras, tal como se de um país se tratasse. Fronteiras traçadas nos mapas da cidade e que para além de identificarem um bairro, identificam uma amalgama cultural, um mundo dentro de outro mundo, como as pregas de uma saia, que têm uma cor ou padrão por fora, mas uma alma diferente por dentro que se manifesta de quando a quando para o exterior.

Essa cidade dentro da cidade tem duas faces, uma cinzelada em forma de máscara de tragédia grega, pseudo-ocidentalizada, a Chinatown dos turistas e das ruas a rebentar pelas costuras, sempre tão cheias de gentes e de tudo. Das lojas, bancas e quiosques, com jóias, brinquedos, artigos electrónicos e malas de senhora de imitação, dos pregões em forma de néon e das marcas bem conhecidas que desfilam nas passerelles de Paris, Milão, Londres ou Nova Iorque. Um mundo do faz de conta, mas em que a imaginação não vale nada, o que soma cifrões são as réplicas o mais fiel possível de uma realidade que está a uns quantos quarteirões mais acima, nas boutiques da 5.ª Avenida, Madison Avenue ou SoHo.

Por trás da máscara está o verdadeiro rosto de Chinatown, a cidade que vive de uma economia paralela, de imigrantes recentes que mal falam inglês e que recebem salários pouco elevados. A Chinatown dos supermercados de produtos com rótulos exclusivamente em caracteres chineses e dos bancos asiáticos em cada esquina. Neste passado Sábado estive, precisamente, nesta outra Chinatown, num casamento que tinha sido celebrado nessa manhã, de acordo com o rito chinês, durante uma cerimónia do chá só para a família em casa dos pais do noivo noutro bairro de Manhattan, Chelsea. Uma família que emigrou da China há mais de quarenta anos, mas cujos pais ainda hoje não falam uma única palavra de Inglês. Trabalhavam, fazem compras e vivem realmente neste outro bairro, objecto dos NY Diaries desta semana, Chinatown. É quase difícil acreditar, não tivesse eu sido apresentada aos mesmos para ser cumprimentada numa língua que para mim precisou de intérprete.

O casamento foi um verdadeiro banquete à moda chinesa, com dez pratos e vestidos de festa chineses. Também havia trajes Indianos e pessoas de muitas outras nacionalidades ou descendências, ou não estivéssemos em Nova Iorque. Noutro hino à diversidade, Nova Iorque celebrou esta semana o início do U.S. Open, com a voz de Aretha Franklin a invocar R.E.S.P.E.C.T. e as irmãs Williams a ganhar aos pontos. Foi muito diferente da minha experiência em Wimbledon em Junho passado. Afinal, foi um Grand Slam à Americana, muita diversidade sim, mas sempre há algumas coisas que only in America...

[Publicado no Semanário Económico - 31 de Agosto, 2007]