Jul 5, 2008

NY Diaries 39: A água toma novas formas

Manhattan é uma ilha em permanente transformação. Uns arranha-céus são deitados abaixo, outros são construídos, assumindo contornos mais ou menos extravagantes. Uma amálgama de betão, ferro e vidro com alguns oásis de verdura e contornada por uma linha de água. Poder vislumbrar a água em profusão traz frescura mental mesmo em dias de verão sufocantes, quando as temperaturas atingem o vermelho e a humidade se avoluma prestes a rebentar numa trovoada. São pequenos nadas que fazem toda a diferença. Afinal Manhattan é uma ilha, mesmo quando os prédios escondem a água. Uma ilha que, em Downtown, se pode atravessar a pé em 15 minutos. De um lado o Hudson, do outro o East River, cada um com uma personalidade e paisagem próprias. A água é energia em circulação, como que o continuar desta cidade vibrante. Mas o lençol de água que aparentemente corre quase imutável, também pode ser transformado.

Desde dia 26 de Junho que Manhattan tem cascatas. Estas, em vez de serem uma criação da natureza, são antes o produto da imaginação e esforço de Olafur Eliasson, o artista que trouxe o "sol" à Tate Modern, em Londres, e que constantemente transforma o que nos rodeia ou a forma como percepcionamos o que pensávamos ser quase imutável. Esta semana vi duas das cascatas de noite. Uma de longe, a do Pier 35, junto à Ponte de Manhattan e outra de perto, da varanda do Pier 17, que proporciona uma vista fantástica da Ponte de Brooklyn e, agora, da cascata debaixo da mesma, junto a um dos seus pilares. Ao todo são quatro as cascatas que transformam a paisagem da cidade durante este verão.

Não é a primeira vez que um mega projecto de arte toma os espaços públicos da cidade. Em 2005, The Gates, obra dos artistas Christo e Jeanne-Claude, invadiram o Central Park de tons de laranja, ainda antes de eu me ter mudado de Londres para Nova Iorque. Desta vez, no entanto, pude experienciar ao vivo a natureza em forma de arte, se assim se pode definir a simulação de um fenómeno natural para fins estéticos ou filosóficos, quase como se de uma obra-prima acidental se tratasse, na terminologia do livro homónimo de Michael Kimmelman, critico de arte do The New York Times, que ando a ler.

O efeito é impressionante. Há poucos fenómenos mais poderosos do que a força da água em queda livre, uma manifestação ao mesmo tempo de força e de paz. É como trazer um pedaço de paraíso à turbulência da cidade. Uma visão idílica que no momento da contemplação consegue apagar todos os ruídos da cidade e que automaticamente nos relaxa do ritmo intensíssimo de um dia de trabalho. Depois, "the show must go on", as cascatas são desligadas às dez da noite, mas a Ásia está a começar o dia e ainda há que tratar dos assuntos urgentes com esta parte do mundo antes que o nosso botão possa ser desligado.

Fotografia: Vincent Laforet para o The New York Times

[Publicado no Semanário Económico - 4 de Julho, 2008]