Jul 12, 2008

NY Diaries 40: Nacionalismo e escapadelas num fim-de-semana prolongado


Nascida a 4 de Julho. Nesta data celebra-se a aprovação pelo Congresso da Declaração da Independência que marcou o cortar do cordão umbilical com Inglaterra e o nascimento de uma nação em 1776. Já passaram séculos, mas nas celebrações que um pouco por todo o país marcam esta data denota-se ainda uma euforia de novo mundo e a necessidade de cunhar uma identidade própria. Entre os cidadãos novos e a "velha guarda", descendentes de famílias que se estabeleceram aqui ainda antes dos Estados Unidos o serem, há várias formas de viver o acontecimento.

Em Washington, D.C., onde passei o meu primeiro 4 de Julho, a massa de pessoas está vestida a rigor, em azuis, vermelhos e brancos, com estrelas e chapéus, desfiles e fogo-de-artifício. Em Nova Iorque, talvez por causa dos muitos estrangeiros ou americanos de primeira geração, as demonstrações exteriores de nacionalismo são menos exuberantes. No entanto, as celebrações não são menos levadas a sério. O magnífico fogo-de-artifício sobre o East River atrai milhares de pessoas à cidade e está entre os melhores que se podem presenciar.

Mas o que seria um fim-de-semana prolongado sem uma escapadela da cidade, nem que seja apenas por um dia. É por isso que "o meu espírito me impele a falar de formas transformadas em novos corpos", numa tradução livre do verso de Ovídio na sua obra, Metamorfoses. Porque viajei à beira do Hudson, ladeada por uma imensidão de água, até Beacon, a Norte de Nova Iorque. Porque ali visitei o Dia, um museu de arte contemporânea com salas desafogadas dedicados a artistas como Donald Judd, Sol LeWitt, Andy Warhol ou Louise Bourgeois. Porque num espaço como este o melhor de dois mundos pode confluir. Foi, de facto, um privilégio poder assistir à actuação de uma das minhas companhias de dança favoritas, a Merce Cunningham Dance Company, com coreografia pelo que é considerado por muitos o melhor coreógrafo vivo, Merce Cunningham, por entre as Torqued Ellipses de um dos escultores que mais gosto, Richard Serra. O guarda-roupa dos bailarinos era em tons férreos, com motivos geométricos minimalistas inspirados pela traça das esculturas. Dentro de cada elipse estava um músico e o som ressoava modificado pelas enormes estruturas de metal. A extremidade de cada galeria estava aberta para o jardim circundante. Foi como passar uma tarde ensolarada na companhia de bailarinos que actuavam à nossa beira.

As actuações da Merce Cunningham Dance Company em espaços públicos não são uma novidade. Já os tinha visto actuar num espaço idêntico, embora de dimensões muito maiores, o Turbine Hall da Tate Modern, por entre a luz do "sol" ou The Weather Project do artista Olafur Eliasson, quando ainda morava em Londres. Estes bailarinos desafiam não só os limites da técnica da dança, como as barreiras espaciais entre espectador e bailarino, imergindo-se no ambiente circundante sem pejos.

Fotografias: The New York Times
[Publicado no Semanário Económico - 11 de Julho, 2008]