Mar 8, 2008

NY Diaries 28: Globalização ou a arte de pôr a (nossa) marca no mundo

No momento em que a economia se contrai, a própria noção de globalização é mais fortemente escrutinada e os seus benefícios questionados. Países como a França mantêm-se proteccionistas na alma ou, pelo menos, na alma dos seus políticos, mas há muito que um crescente número de empresas, até mesmo as francesas, de todos os quadrantes e áreas de actividade, compreenderam as teorias de economistas dos séculos XVIII e XIX como Adam Smith e David Ricardo. O mundo é o tabuleiro de xadrez onde se delineiam estratégias e se conquista. Nesta era em que as fronteiras são cada vez mais efémeras, a influência de um país no mundo pode assumir várias formas. No caso de Cai Guo-Qiang, artista Chinês que já viveu e trabalhou no Japão e que agora vive em Nova Iorque, a forma de deixar a sua marca no mundo transcendeu a trilogia tradicional que consiste em escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho e assumiu, talvez, uma forma mais efémera, mas não menos transformadora. O seu principal meio de expressão é a pólvora, inventada na China e que em Chinês significa, literalmente, "medicamento de fogo", que Cai utiliza de forma magistral, como que se a tentar controlar o incontrolável, tal como na letra de Discotheque dos U2 "You can reach / But you can't grab it / You can hold it, control it / No, you can't bag it".

O próprio Guggenheim que é um verdadeiro museu multinacional com presença também fora dos Estados Unidos, em cidades como Bilbau, Berlim e Veneza, tem neste momento em mostra em Nova Iorque uma exposição dedicada a Cai Quo-Qiang, a primeira retrospectiva dedicada pela instituição a um artista Chinês. A exposição tem em mostra três tipos de trabalhos, instalações, como Inopportune: Stage One (2004) que consiste em nove carros verdadeiros suspensos desde o tecto até ao átrio central do museu em progressão, como que se a encenar os vários estágios de uma explosão; eventos que envolvem verdadeiras explosões que decorreram desde 1989 em mais de vinte cidades por todo o mundo e que são apresentadas em vídeo; e desenhos feitos de explosões de pólvora sobre papel. Cai é considerado por alguns um artista conceptual, mas qualquer tentativa de classificação fica sempre aquém da versatilidade do seu trabalho que desafia as fronteiras tradicionais entre arte, história e filosofia. Apesar de ser um artista internacional, Cai cresceu durante a revolução cultural chinesa e o seu trabalho inclui motivos relacionados com episódios da história da China e denota influências da ideologia Maoísta e do confusionismo.

O que é preciso perceber é que as vantagens resultantes da globalização não se anulam, mas somam-se. Assim como um trabalho artístico produzido em Nova Iorque pode patrocinar a China, também um produto produzido por encomenda na China pode resultar numa margem de lucro de 1.5% para a empresa que o manufactura e em 53% de margem para as empresas que o distribuem nos Estados Unidos ou na Europa.


[Publicado no Semanário Económico - 7 de Março, 2008]